SIBO | o que é, quais os sintomas, causas e como pode ser tratada

SIBO

Uma viagem sobre a doença SIBO, com a qual Helena Coelho foi, recentemente, diagnosticada (Créditos: Instagram)

Helena Coelho revelou recentemente ter sido diagnosticada com SIBO, sigla inglesa para Small Intestinal Bacterial Overgrowth, ou sobrecrescimento bacteriano do intestino delgado. A criadora de conteúdos digitais explicou que o inchaço abdominal, que descreveu como um inchaço que “não faz sentido”, esteve entre os sintomas que a levaram a procurar ajuda médica.

O caso chama a atenção para uma condição que pode ser difícil de reconhecer porque os seus sintomas são relativamente inespecíficos. Inchaço, gases, dor abdominal, diarreia ou obstipação podem ter muitas causas e a presença destes sintomas, por si só, não significa que uma pessoa tenha SIBO.

A literatura médica define a SIBO como uma quantidade excessiva de bactérias no intestino delgado capaz de provocar sintomas gastrointestinais e, em alguns casos, problemas de digestão ou absorção de nutrientes. As orientações do American College of Gastroenterology salientam precisamente a necessidade de enquadrar o diagnóstico no contexto clínico de cada doente.

O que é exatamente a SIBO?

O aparelho digestivo não é estéril. Existem milhões de microrganismos ao longo do tubo digestivo, mas a quantidade e composição das bactérias variam significativamente entre o intestino delgado e o cólon. O intestino delgado, sobretudo nas suas porções iniciais, apresenta normalmente uma quantidade relativamente baixa de bactérias. O ácido produzido pelo estômago, a bílis, as enzimas digestivas, o funcionamento do sistema imunitário e os movimentos do intestino ajudam a impedir que os microrganismos se acumulem excessivamente nessa região.

Quando estes mecanismos de proteção são perturbados, pode ocorrer um aumento anormal de microrganismos no intestino delgado. É a este fenómeno que se chama SIBO — Small Intestinal Bacterial Overgrowth. O problema não está simplesmente na existência de bactérias. Elas fazem parte naturalmente do organismo. A questão está no local onde se encontram, na quantidade, no tipo de microrganismos e na interação destes com o funcionamento intestinal.

Porque é que o excesso de bactérias provoca sintomas?

As bactérias presentes no intestino conseguem fermentar determinados componentes dos alimentos, sobretudo hidratos de carbono que chegam ao intestino sem terem sido completamente absorvidos. Durante esse processo são produzidos gases, incluindo hidrogénio e, dependendo dos microrganismos envolvidos, metano. O resultado pode ser distensão abdominal, sensação de barriga cheia, gases e flatulência.

O excesso de microrganismos também pode interferir com a digestão e absorção. Em situações mais significativas, pode ocorrer má absorção de gordura e determinados nutrientes, incluindo vitamina B12. A desregulação da digestão das gorduras pode ainda contribuir para alterações das fezes e perda de peso. É importante, contudo, não transformar esta explicação numa relação automática entre SIBO e qualquer sintoma digestivo. A intensidade dos sintomas não corresponde necessariamente à quantidade de bactérias encontrada e existem outras doenças capazes de produzir manifestações muito semelhantes.

Quais são os sintomas da SIBO?

Os sintomas mais frequentemente associados à SIBO são:

O inchaço abdominal é particularmente relevante porque é uma das queixas que mais frequentemente leva à investigação de problemas relacionados com o intestino. No entanto, inchaço não é sinónimo de SIBO. Síndrome do intestino irritável, doença celíaca, intolerâncias alimentares, doenças inflamatórias intestinais e outras alterações gastrointestinais podem apresentar sintomas semelhantes.

SIBO pode provocar défices nutricionais?

Pode. Em casos clinicamente relevantes, o excesso de microrganismos pode interferir com a absorção de determinados nutrientes. A vitamina B12 é particularmente importante neste contexto, podendo existir défice em algumas pessoas com SIBO. Também podem surgir alterações relacionadas com vitaminas lipossolúveis e outros nutrientes quando existe má absorção de gordura ou doença intestinal significativa. É por isso que, perante determinados sintomas ou fatores de risco, a avaliação médica pode incluir análises para verificar se existem défices nutricionais ou sinais de má absorção. A perda de peso involuntária, anemia, défices vitamínicos ou sinais de desnutrição são particularmente importantes e justificam uma investigação mais aprofundada.

Quais são as causas da SIBO?

A SIBO não deve ser encarada, na maioria dos casos, como uma doença que surge isoladamente sem qualquer contexto. Existem vários mecanismos que normalmente impedem a proliferação excessiva de bactérias no intestino delgado. Quando um ou vários deles deixam de funcionar adequadamente, o risco pode aumentar. Entre os fatores associados encontram-se:

Alterações da motilidade intestinal

Os movimentos do intestino ajudam a transportar o conteúdo digestivo e a limitar a acumulação de bactérias no intestino delgado. Doenças ou situações que diminuam essa motilidade podem favorecer o sobrecrescimento bacteriano. Entre as condições associadas encontram-se algumas perturbações da motilidade, diabetes, hipotiroidismo e determinadas doenças sistémicas.

Alterações anatómicas

Cirurgias abdominais anteriores, aderências, estreitamentos intestinais, divertículos do intestino delgado ou determinadas alterações anatómicas podem criar zonas onde o conteúdo intestinal fica retido. Essa estase pode favorecer a proliferação bacteriana.

Redução da acidez gástrica

O ácido do estômago constitui uma das barreiras naturais contra a proliferação excessiva de microrganismos. Uma redução significativa da acidez pode, por isso, estar associada a um maior risco de SIBO. Alguns medicamentos que reduzem a produção de ácido gástrico também são considerados no contexto clínico, embora isso não signifique que devam ser interrompidos sem indicação médica.

Doenças do aparelho digestivo

Doenças que afetem a estrutura ou o funcionamento do intestino, assim como determinadas doenças do pâncreas ou do fígado, podem estar associadas a SIBO. Também existem associações com algumas situações de imunodeficiência.

Como é feito o diagnóstico da SIBO?

Esta é uma das questões mais importantes. Não existe atualmente um teste perfeito que possa ser considerado um padrão-ouro absoluto e universal para diagnosticar SIBO. A própria investigação médica reconhece limitações nos métodos disponíveis. Um dos exames mais utilizados é o teste respiratório, que mede gases produzidos por microrganismos depois da ingestão de determinado substrato, normalmente glicose ou lactulose.

Durante o exame são recolhidas amostras de ar expirado em diferentes momentos. A análise procura sobretudo alterações nos níveis de hidrogénio e metano. A lógica é relativamente simples: determinadas bactérias e outros microrganismos metabolizam os hidratos de carbono administrados durante o teste e produzem gases que podem posteriormente ser detetados no ar expirado.

Contudo, o exame tem limitações. O resultado precisa de ser interpretado juntamente com os sintomas, antecedentes clínicos e fatores de risco. Resultados falsamente positivos ou negativos podem ocorrer, razão pela qual um teste respiratório não deve ser interpretado isoladamente. Uma cultura obtida através de aspiração do intestino delgado é outro método possível, mas é invasivo, mais complexo e também apresenta limitações práticas e de reprodutibilidade.

Como é tratada a SIBO?

O tratamento depende da situação clínica e deve procurar responder a duas questões diferentes:

Como reduzir o sobrecrescimento existente? e Porque é que esse sobrecrescimento aconteceu?

Os antibióticos podem ser utilizados para reduzir o excesso de microrganismos. A rifaximina é um dos antibióticos mais estudados neste contexto, embora a escolha do medicamento dependa do perfil clínico, do tipo de sobrecrescimento, de eventuais contraindicações e da orientação médica. No caso de Helena Coelho, a própria revelou que iniciou tratamento com um antibiótico, mas não é conhecida publicamente a informação clínica necessária para determinar qual foi o medicamento utilizado, qual a duração do tratamento ou qual o subtipo de SIBO diagnosticado. Não seria, portanto, correto extrapolar essa informação.

Tratar apenas as bactérias pode não ser suficiente

Este é um dos aspetos fundamentais da SIBO. Se existir uma alteração da motilidade intestinal, uma alteração anatómica ou outra condição que esteja a favorecer a acumulação de microrganismos, eliminar temporariamente o excesso de bactérias pode não resolver o problema a longo prazo. É por isso que as recomendações clínicas valorizam a identificação e tratamento da causa subjacente, quando esta é encontrada.

E a alimentação? É preciso fazer uma dieta muito restritiva?

Não existe uma dieta universal que cure a SIBO. Algumas estratégias alimentares podem ser utilizadas para reduzir sintomas, nomeadamente através da diminuição temporária de determinados hidratos de carbono fermentáveis. A dieta baixa em FODMAP, por exemplo, pode ajudar algumas pessoas com sintomas gastrointestinais, mas a evidência disponível não permite considerá-la, por si só, um tratamento de erradicação da SIBO.

Uma dieta excessivamente restritiva também pode apresentar problemas, sobretudo se for prolongada sem acompanhamento adequado. É neste ponto que o acompanhamento nutricional pode assumir importância: em vez de simplesmente retirar sucessivamente alimentos da alimentação, o objetivo deverá ser perceber quais os alimentos que desencadeiam sintomas, garantir uma ingestão nutricional adequada e, quando apropriado, proceder à reintrodução gradual. A descrição feita por Helena Coelho sobre o acompanhamento por um nutricionista especializado e a realização de testes alimentares seguida de reintroduções enquadra-se nesse princípio de individualização, embora os detalhes do seu tratamento pertençam naturalmente à sua esfera clínica privada.

A SIBO pode voltar depois do tratamento?

Pode. A recorrência é um dos desafios da SIBO. Estudos citados na literatura médica apontam para uma proporção significativa de recorrências depois do tratamento com antibióticos, embora os números variem consoante as populações estudadas e os critérios utilizados para diagnóstico. Isto ajuda a explicar porque o tratamento não deve ser encarado apenas como uma questão de “matar bactérias”. Quando existe uma causa predisponente que permanece, o problema pode reaparecer. Por essa razão, uma abordagem médica adequada procura perceber porque surgiu a SIBO, tratar o sobrecrescimento quando indicado e corrigir os fatores que possam favorecer uma nova ocorrência.

SIBO é uma doença perigosa?

Na maioria das pessoas, a SIBO não representa uma emergência médica e pode ser tratada. Contudo, casos mais graves ou prolongados podem provocar má absorção, perda de peso e défices nutricionais, sobretudo quando existe uma doença subjacente importante. Sintomas como perda de peso inexplicada, sangue nas fezes, anemia, febre, vómitos persistentes, dor abdominal intensa ou progressiva ou sinais de desnutrição não devem ser simplesmente atribuídos a SIBO sem investigação médica. Também é importante não iniciar antibióticos, suplementos ou dietas extremamente restritivas por iniciativa própria apenas porque existem sintomas compatíveis.

SIBO ou síndrome do intestino irritável?

As duas condições podem apresentar sintomas muito semelhantes. Inchaço, gases, dor abdominal e alterações das fezes podem aparecer tanto na SIBO como na síndrome do intestino irritável (SII). É precisamente por essa sobreposição que o diagnóstico exige cuidado. A presença de sintomas não é suficiente para concluir que existe SIBO e uma investigação adequada pode ter de considerar outras patologias, incluindo doença celíaca e doença inflamatória intestinal. A SIBO pode também coexistir com outras doenças gastrointestinais, o que torna ainda mais importante perceber a história clínica completa de cada pessoa.

O caso de Helena Coelho volta a colocar o intestino no centro das atenções

O diagnóstico revelado por Helena Coelho chama a atenção para uma condição que pode passar despercebida durante algum tempo precisamente porque os seus sintomas são comuns a muitas outras perturbações digestivas. O seu relato — particularmente a referência ao inchaço abdominal persistente, ao tratamento antibiótico e ao acompanhamento nutricional posterior — ilustra uma abordagem que pode envolver diferentes profissionais de saúde.

Mas há uma distinção importante entre o relato de uma figura pública e a realidade clínica da população em geral: o diagnóstico de SIBO deve ser individualizado e não pode ser estabelecido apenas através de sintomas encontrados na Internet ou pela semelhança com o caso de outra pessoa. Cada caso será sempre um caso e a saúde de cada um também é e será sempre variável.

A investigação científica tem evoluído na forma como a SIBO é diagnosticada e tratada, mas continuam a existir limitações nos testes disponíveis e questões em aberto sobre a melhor abordagem para determinados doentes. As recomendações mais recentes reforçam precisamente a importância de uma interpretação cuidadosa dos testes respiratórios e de uma estratégia orientada pelos sintomas e pelo contexto clínico.

Por isso, perante sintomas digestivos persistentes, a resposta não deverá passar por eliminar alimentos indiscriminadamente ou tomar antibióticos sem orientação. O primeiro passo é perceber o que está realmente a provocar os sintomas e se existe, de facto, SIBO ou outra condição gastrointestinal.

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