Quinta-feira Santa: o dia em que Cristo lavou os pés aos discípulos e instituiu a Eucaristia

Cristo lava os pés aos apóstolos (Créditos: ARTE SACRA - A. Batista Jr Facebook)

Celebrada na semana que antecede a Páscoa, a Quinta-feira Santa é um dos momentos mais solenes do calendário cristão, marcada por simbolismo, tradição e um profundo significado bíblico.

A Quinta-feira Santa, também conhecida como Quinta-feira de Endoenças, é o primeiro dia do chamado Tríduo Pascal — o período de três dias que antecede a Páscoa e que inclui também a Sexta-feira Santa e o Sábado Santo. Para os cristãos, especialmente os católicos, este dia tem um enorme peso espiritual, por ser aquele em que se recordam dois dos gestos mais profundos e significativos de Jesus Cristo antes da sua paixão e morte: o lava-pés e a instituição da Eucaristia.

O que se celebra na Quinta-feira Santa?

A Quinta-feira Santa evoca a Última Ceia de Jesus com os seus discípulos. De acordo com os Evangelhos, foi nessa noite que Jesus:

  1. Lavou os pés aos seus apóstolos, num gesto de humildade e serviço.
  2. Instituiu a Eucaristia, oferecendo o pão e o vinho como o seu corpo e sangue.
  3. Estabeleceu o sacerdócio, dizendo aos discípulos para fazerem o mesmo em sua memória.

É também nesta noite que Jesus é traído por Judas e entregue às autoridades religiosas, dando início ao seu sofrimento.

A Missa de Lava-Pés: um Ritual de Humildade

Um dos momentos mais emocionantes da liturgia da Quinta-feira Santa é o rito do Lava-Pés, que relembra o episódio narrado no Evangelho segundo São João (Jo 13, 1-15). Nesta cerimónia, o sacerdote lava os pés a doze fiéis, imitando o gesto de Cristo com os seus apóstolos.

Este ritual, que apenas se celebra nesta missa ao longo de todo o ano litúrgico, simboliza humildade, serviço e entrega. Jesus, sendo Mestre e Senhor, ajoelha-se perante os discípulos e realiza uma tarefa geralmente atribuída aos servos. O gesto serve como ensinamento: “Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu vos fiz, vós também o façais” (Jo 13,15).

Nos últimos anos, o Papa Francisco tem dado ainda mais visibilidade a este momento, lavando os pés a pessoas de várias origens — prisioneiros, refugiados, mulheres, muçulmanos — sublinhando o carácter inclusivo e universal da mensagem cristã.

A instituição da Eucaristia

Durante a Última Ceia, Jesus tomou o pão e disse: “Isto é o meu corpo, que será entregue por vós”, e depois o cálice de vinho: “Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança” (Lc 22,19-20). Este momento, considerado o início da Eucaristia, é central na fé católica, pois marca a presença real de Cristo no sacramento do altar. É também neste dia que os sacerdotes renovam os seus votos, e que se celebra, com solenidade, o dom do sacerdócio ministerial.

A instituição da Eucaristia (Créditos: Facebook)

A cerimónia do “desnudamento” do altar

Após a celebração da Missa Vespertina da Ceia do Senhor, os altares das igrejas são despojados de toalhas, cruzes, flores e velas. Este ritual, conhecido como “desnudamento do altar”, simboliza a desolação sentida após a prisão de Cristo. Não há bênção final: os fiéis saem em silêncio, e o Santíssimo Sacramento é levado para um lugar de adoração, conhecido como Horto, onde permanece até à Vigília Pascal.

Expressões populares e tradições em Portugal

Em Portugal, a Quinta-feira Santa é também chamada de Quinta-feira de Endoenças, nome que vem da palavra “indulgências”. No passado, os fiéis procuravam confessar-se e cumprir promessas nesse dia, associando-o ao perdão e à misericórdia divina. Em algumas regiões, como no norte do país, é tradição visitar sete igrejas para adoração ao Santíssimo Sacramento — uma prática conhecida como “visita às igrejas”. Na arte sacra portuguesa, são inúmeras as representações do lava-pés e da Última Ceia, sobretudo em painéis de azulejos, retábulos e esculturas.

Curiosidades

Papa Francisco (Créditos: Vatican Media/Lusa)

Mais do que uma simples tradição religiosa, a Quinta-feira Santa é um apelo à vivência da humildade, da entrega ao próximo e da profundidade do mistério cristão. O gesto de lavar os pés, muitas vezes esquecido no ruído do quotidiano, é uma chamada de atenção de que a verdadeira grandeza reside no serviço e na capacidade de amar.

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