O acidente ferroviário de Alcafache, que resultou no choque entre o Sud-Express e um regional na Linha da Beira Alta, a 11 de setembro de 1985, continua a ser o mais grave da história do país.
Quarenta anos depois, Alcafache mantém-se um marco indelével na memória de todos os portugueses, tanto pela dimensão da tragédia como pelas mudanças que trouxe ao transporte ferroviário em si.
Uma tarde marcada pelo infortúnio
Era final da tarde do dia 11 de setembro de 1985 quando, entre Mangualde e Nelas, dois comboios colidiram frontalmente na Linha da Beira Alta. O Sud-Express, com destino a Paris, carregado de emigrantes que regressavam depois das férias em Portugal, chocou de frente com um regional que seguia para Coimbra.
O embate ocorreu às 18h37. O Sud-Express levava mais de 400 passageiros; o regional, dezenas de viajantes. A linha, de via única na maior parte do percurso, não permitia margens de erro. E o erro aconteceu…

O choque violento foi seguido de incêndios devastadores, alimentados pelo gasóleo das locomotivas, que na altura serviam tanto para a deslocação como para o próprio aquecimento dos vagões, e pelo pinhal em redor. O cenário era de horror absoluto, descrito pelos bombeiros como uma das mais duras experiências de salvamento que alguma vez viveram. Muitos corpos ficaram irrecuperáveis, consumidos pelas chamas com alguns dos relatos de quem participou na operação de socorro a serem verdadeiramente arrepiantes: corpos carbonizados, membros espalhados, e alguns pais abraçados aos filhos num último gesto de proteção.

Uma Catástrofe de Erros e a Falta de Comunicação
O que aconteceu no acidente ferroviário de Alcafache foi uma terrível cadeia de infortúnios. O comboio Sud-Express partiu do Porto com um atraso de 17 minutos, e o comboio regional partiu de Viseu a horas. Ambos seguiam na mesma linha única da Beira Alta, e o plano de segurança exigia que, devido ao atraso do comboio internacional, o regional aguardasse em Mangualde. Contudo, tal não aconteceu.
Com a impossibilidade de comunicar com os comboios em andamento, o desastre tornou-se inevitável. A inacessibilidade do local e a falta de organização dos meios agravaram a situação, num país pouco preparado para uma tragédia daquela dimensão.

O número exato de vítimas ainda hoje é uma incógnita. Os primeiros relatórios apontavam para 49 mortos e 64 desaparecidos, mas o número aceite hoje em dia é de cerca de 150 mortos, número esse que varia de publicação para publicação, e um que reflete a dimensão real da tragédia. Trata-se, ainda hoje, do desastre ferroviário mais mortífero de sempre em Portugal.

(Créditos: News_Museum)
O impacto imediato
O acidente ferroviário de Alcafache deixou o país em estado de choque. Na mesma noite, o então Presidente da República, Ramalho Eanes, deslocou-se ao local, exigindo transparência numa altura em que Portugal ainda vivia memórias recentes da censura. Foi também graças a essa decisão que as primeiras imagens chegaram de madrugada às casas dos portugueses, transmitidas pela RTP. A comoção foi tal que centenas de pessoas correram aos hospitais para doar sangue. O primeiro-ministro, Mário Soares, declarou três dias de luto nacional.
As mudanças que Alcafache trouxe
Da tragédia do acidente ferroviário de Alcafache nasceu também a necessidade de mudar. O acidente revelou a vulnerabilidade da rede ferroviária portuguesa da época: falta de comunicação entre comboios, ausência de sistemas automáticos de controlo e vias únicas em troços críticos.
Depois do acidente ferroviário de Alcafache, foram implementados sistemas de rádio nos comboios, o que permitiu que os maquinistas pudessem comunicar entre si e com as centrais de controlo, melhorias na sinalização e reforços no controlo de velocidade, medidas que, em grande parte, contribuíram para evitar que uma tragédia semelhante voltasse a acontecer e um dos legados mais importantes de Alcafache para a segurança ferroviária nacional.
A memória preservada
O local da tragédia, em Alcafache, junto à linha férrea, é hoje um espaço de homenagem. Existe um memorial às vítimas e, recentemente, foram feitas obras para tornar o espaço mais digno. Todos os anos, a 11 de setembro, realiza-se uma cerimónia evocativa, marcada pela presença de sobreviventes, familiares das vítimas e representantes oficiais. Este ano não será diferente, com a cerimónia marcada para dia 14 de setembro de 2025.

Outras tragédias na ferrovia portuguesa
Apesar de ser o mais grave, o acidente ferroviário de Alcafache não foi o único acidente ferroviário em Portugal. Entre os mais marcantes, contam-se:
- Fuseta (1987): colisão entre dois comboios, 5 mortos.
- Albergaria dos Doze (1992): choque frontal, 3 mortos.
- Estômbar-Lagoa (1997): colisão, 6 mortos.
- Lousã (2002): embate entre duas automotoras, 5 mortos.
- Abela (2003): colisão de mercadorias, 2 mortos.
- Carrazeda de Ansiães (2007): descarrilamento, 3 mortos.
- Soure (2020): colisão de Alfa Pendular com veículo de manutenção, 2 mortos e 44 feridos.
O desastre no Elevador da Glória
Quase quatro décadas depois do acidente ferroviário de Alcafache, Portugal voltou a ser abalado por uma tragédia ferroviária de grandes proporções — desta vez no coração da capital. No dia 3 de setembro de 2025, o Elevador da Glória, que liga o Miradouro de São Pedro de Alcântara à Praça dos Restauradores, descarrilou violentamente, embatendo contra um edifício, deixando um rasto de destruição no centro de Lisboa.
O acidente, ainda sob investigação, vitimou 16 pessoas até ao momento, incluindo o guarda-freios André Marques, que ia aos comandos da composição. No total, seguiam a bordo 38 passageiros, de várias nacionalidades, numa das viagens mais emblemáticas para turistas e lisboetas. As vítimas mortais incluem cinco portugueses, dois sul-coreanos, um suíço, três britânicos, dois canadianos, um ucraniano, um americano e um francês. Além disso, 22 feridos continuam a lutar pela vida em diferentes hospitais da capital, alguns em estado crítico.
O impacto foi tão forte que os especialistas já o classificam como um acidente inédito na história ferroviária do país, não apenas pela violência em pleno centro urbano, mas também pela percentagem de mortos em relação ao número total de passageiros, um dado raramente visto em sinistros deste género.
Mais do que um meio de transporte, o Elevador da Glória é um marco histórico e cultural de Lisboa, inaugurado em 1885 e classificado como Monumento Nacional desde 2002. Esta tragédia deixou marcas profundas numa cidade habituada a vê-lo como parte do seu quotidiano e como símbolo turístico, levantando agora questões sobre segurança, manutenção e preservação deste tipo de património.
Um 11 de setembro português
Curiosamente, esta data coincide com outras tragédias mundiais. Mas em Portugal, o 11 de setembro de 1985 permanece marcado pelo silêncio pesado do acidente ferroviário de Alcafache. Um dia em que centenas de famílias ficaram sem respostas completas, e em que a ferrovia portuguesa ficou para sempre diferente.






