Há rituais que não mudam. Colocar os auscultadores, fechar os olhos e deixar que aquelas primeiras notas de piano nos transportem. Não importa se estamos em 2003 ou em 2025. Há músicas que têm o dom da eternidade e “My Immortal”, dos Evanescence, é a prova viva disso.
Passaram 22 anos. Vinte e dois. E, no entanto, a sensação é visceral. Podemos ouvi-la três, quatro, cinco vezes seguidas — naquele loop emocional que só as grandes baladas permitem — e, a cada repetição, parece sempre a primeira vez. O arrepio na espinha continua lá, a pele de galinha é inevitável e somos imediatamente transportados para aquela melancolia da adolescência que, com estas músicas, percebemos que nunca nos abandonou totalmente.
Mas o que faz desta música um hino que não deixa ninguém indiferente, mesmo duas décadas depois, que apenas no video oficial da banda no Youtube, já passou mil milhões de visualizações? A resposta óbvia não é obvia, mas entre a letra, a melodia, o vídeo, o que realmente eleva a música seria a voz de Amy Lee.
Dizem que a perfeição não existe, mas a voz de Amy Lee anda perigosamente perto de provar o contrário. É uma voz que carrega o peso do mundo e a leveza de um anjo, capaz de transformar a dor em algo belo.
Contudo, há uma ironia deliciosa por trás de “My Immortal“. Aquela gravação que todos conhecemos de cor, que tocou nas rádios até à exaustão e que liderou os tops em Portugal? A Amy Lee detestava-a.
O Segredo por trás do Piano “Desafinado”
É difícil imaginar, mas a música que trouxe as power ballads de volta à moda nos anos 2000 era, para a vocalista, uma fonte de frustração.
“Eu sempre a odiei!”, confessou Amy numa entrevista em 2018. “Soo como uma criança, o piano é uma porcaria… e essa é a versão que ouvimos sempre que vamos ao supermercado.”
A verdade por trás da magia de “My Immortal” é surpreendentemente crua. A versão que ouvimos no álbum Fallen não foi gravada num estúdio de luxo com produtores de topo. Foi uma demo. Foi gravada pela Amy e pelo guitarrista Ben Moody, pela noite dentro, nos estúdios da estação de rádio onde o pai de Amy trabalhava, na sua terra natal, Arkansas.
Não havia orquestra real, nem piano de cauda. O som icónico que nos habituámos a amar foi tocado num teclado MIDI, e aquela voz — que nos parece tão pura e vulnerável — era a de uma Amy Lee com 19 anos, acabada de sair do liceu.
A Batalha contra a Editora
Quando chegou a altura de lançar o álbum de estreia, a banda queria regravar “My Immortal”. Queriam polimento, cordas reais, uma produção “a sério”. Mas a editora, a Wind-Up Records, recusou.
Os executivos apaixonaram-se pela vulnerabilidade daquela demo. Ouviram nela algo que nenhuma superprodução conseguiria replicar: uma honestidade brutal. Amy lutou, a banda ficou furiosa, mas a editora venceu. E, ironicamente, talvez tivessem razão.
A magia de “My Immortal” reside exatamente nessa imperfeição. O piano que soa solitário, a voz que por vezes treme não por técnica, mas por emoção pura. É essa crueza que faz com que a letra — escrita por Ben Moody sobre um espírito que assombra um ente querido — nos toque tão fundo.
Um Legado a Preto e Branco
Hoje, quando revemos o videoclipe de “My Immortal”, filmado no Bairro Gótico de Barcelona, a preto e branco, com Amy a caminhar como uma “heroína da miséria adolescente”, não vemos as falhas técnicas que a atormentavam. Vemos arte.
“My Immortal” sobreviveu ao teste do tempo não por ser tecnicamente imaculada, mas por ser humana. É a banda sonora das nossas feridas que (como diz a letra) “won’t seem to heal”, mas que aprendemos a abraçar.
Então, se precisarem de mim nos próximos minutos, já sabem onde estou: a carregar no play pela sexta vez, a deixar-me arrepiar como se fosse 2003, rendido àquela voz que, perfeita ou não, é imortal.
“I’ve tried so hard to tell myself that you’re goneBut though you’re still with me, I’ve been alone all along…”