A terceira temporada da aclamada série The White Lotus, da Max (e que em Portugal será vista na HBO Portugal), não se limita a explorar as dinâmicas complexas e muitas vezes disfuncionais dos seus hóspedes num luxuoso resort. Nos seus novos episódios, a série elege um fármaco em particular como um elemento central na narrativa, com o Lorazepam a assumir um papel de destaque na vida de, pelo menos, duas personagens cruciais.
Esta escolha narrativa lança luz sobre um medicamento amplamente prescrito para a ansiedade, mas cujo uso indevido e dependência acarretam riscos significativos.
Lorazepam: O Que é e Para Que Serve?
O Lorazepam pertence à classe dos benzodiazepínicos, um grupo de medicamentos que atuam no sistema nervoso central e que produzem um efeito calmante. De acordo com o National Institutes of Health, o Lorazepam é frequentemente prescrito para o tratamento da ansiedade, geralmente por um período limitado de cerca de quatro meses. A sua popularidade reside na sua ação relativamente rápida, que proporciona um alívio dos sintomas de ansiedade num curto espaço de tempo. A posologia usual envolve a toma de duas a três vezes por dia, com uma dose diária máxima recomendada de 10 miligramas.
O Lorazepam em “The White Lotus”: Um Refúgio Perigoso:
No decorrer da história deste terceira temporada, acompanhamos Victoria Ratliff, interpretada por Parker Posey, uma personagem que recorre ao Lorazepam de forma quase constante, quase como se fossem simples doces. Mais tarde, o seu marido, Timothy Ratliff, interpretado por Jason Isaacs, também desenvolve uma dependência do referido medicamento. A forma como a série retrata o consumo desmedido deste medicamento em particular, por estas personagens, serve como um alerta para os perigos inerentes ao uso inadequado deste tipo de substâncias, bem como suas consequências.

Os Riscos da Utilização Prolongada e Indevida:
A representação em The White Lotus (ou noutras séries) relembra e alerta para os riscos reais associados à toma deste e deste tipo de medicamento. Um dos perigos mais significativos é o potencial para o desenvolvimento de dependência física e psicológica. A toma prolongada, mesmo dentro das doses prescritas, pode levar o organismo a habituar-se ao medicamento, exigindo doses cada vez maiores, para obter o mesmo efeito e resultando em sintomas de abstinência desagradáveis, caso a sua utilização seja interrompida abruptamente.
Os efeitos secundários comuns do Lorazepam incluem tonturas, fraqueza, sonolência e instabilidade. Quando utilizado por longos períodos, estes efeitos podem persistir e interferir significativamente na qualidade de vida do indivíduo. Além disso, o uso indevido, que na série se manifesta pela toma excessiva e, potencialmente, pela partilha do medicamento, aumenta exponencialmente os riscos.
Em situações mais graves, especialmente quando combinado com álcool ou outras substâncias depressoras do sistema nervoso central, pode ocorrer uma overdose. Os sintomas de overdose podem incluir respiração lenta e superficial, pressão arterial perigosamente baixa e, em casos extremos, coma.
A Banalização do Uso Indevido
A farmacêutica Marta Miyares, em declarações ao website HealthDigest, expressa uma preocupação pertinente relativamente à representação do Lorazepam em The White Lotus. Embora a série possa contribuir para aumentar a consciencialização sobre a existência e os efeitos deste tipo de medicamentos, existe também o risco de banalizar o seu uso indevido. A forma casual como algumas personagens recorrem ao Lorazepam pode levar o público a subestimar os seus perigos reais.
Um estudo de 2019, publicado no Psychiatric Services, citado por Miyares, revela que uma percentagem alarmante de pessoas que tomam benzodiazepínicos acaba por utilizá-los de forma indevida, sendo a partilha do medicamento com amigos ou familiares uma das formas mais comuns de uso inadequado – um cenário que, de certa forma, se espelha na dinâmica entre as personagens da série.

A inclusão do deste fármaco como um elemento central na narrativa da terceira temporada de The White Lotus oferece uma oportunidade para refletir sobre a complexa relação entre a sociedade e os medicamentos para a saúde mental. Ao mesmo tempo que fármacos como o Lorazepam podem ser ferramentas valiosas no tratamento da ansiedade, sob supervisão médica adequada e por períodos limitados, a sua utilização negligente e prolongada acarreta riscos consideráveis.
The White Lotus, ao expor o consumo problemático deste medicamento, deverá ser interpretada como uma chamada de atenção para a sua toma, para a importância da informação, da precaução e do acompanhamento médico na gestão da saúde mental e no uso de qualquer tipo de medicação psicotrópica. É crucial que a ficção, ao abordar temas sensíveis, como a dependência de medicamentos, incite à procura de informação rigorosa e, principalmente, à consciencialização dos perigos reais envolvidos.






