As doenças cardiovasculares continuam a ser um flagelo de saúde pública em Portugal. A cada ano, mais de 30 mil portugueses morrem devido a patologias relacionadas com o coração, mantendo-se no topo da lista das principais causas de morte no país.
No topo da lista das doenças cardiovasculares, podemos encontrar o enfarte do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC) preenchem o ranking de mortes, na grande maioria dos casos, evitáveis. E o corpo, pelo menos na grande maioria das vezes, alerta — é, portanto, urgente que também o ouçamos. A comunidade médica reforça uma mensagem crucial: no que toca ao coração, cada minuto conta. A rapidez na identificação dos sintomas e na procura de ajuda médica é o fator mais determinante para a esperança de uma recuperação completa e sem sequelas.
No topo da lista: Enfarte e AVC
No topo do ranking das mortes derivadas de doenças cardiovasculares, em Portugal, encontramos o enfarte agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC). Estes são os dois exemplos mais comuns e letais, causadas principalmente pelo bloqueio do fluxo sanguíneo para o coração ou para o cérebro. Apesar do coração trabalhar incansavelmente, o estilo de vida moderno em Portugal está a criar um terreno fértil para o “desequilíbrio” que o faz perder o compasso.
A necessidade de se proteger o coração (Créditos: Pexels)
Os números e a gravidade da situação
Todos os anos, morrem cerca de 33 mil portugueses devido a doenças cardiovasculares, segundo dados recentes e alertas de especialistas.
Em 2020, registaram-se 34 593 mortes atribuíveis a doenças do aparelho circulatório — cerca de 28 % do total de óbitos em Portugal.
Dados do Relatório de Saúde da União Europeia indicam que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal, superando cancro e outras doenças crónicas.
As doenças cardiovasculares representam cerca de 31,9 % dos óbitos no país — quase um terço.
A prevalência de hipertensão é elevada: estimativas mostram que, em 2014, cerca de 42,2 % da população tinha pressão arterial alta.
Estudos recentes indicam que 9 em cada 10 portugueses adultos têm pelo menos um fator de risco cardiovascular (sedentarismo, colesterol elevado, obesidade, tabagismo ou má alimentação).
Estes números são mais do que “simples” estatísticas: são sinais importantes de alerta para uma epidemia silenciosa, uma que exige iniciativas de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento eficaz.
Os Sinais Vitais a que deve estar atento:
A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), alerta para a necessidade de saber interpretar os sinais do corpo. Perante os seguintes sintomas, a ação deve ser imediata:
Dor Torácica Intensa: Uma dor no meio do peito, descrita como aperto, peso ou pressão, que pode irradiar para os braços (geralmente o esquerdo), ombros, pescoço ou mandíbula.
Sintomas Neurológicos (Sinais de AVC): A manifestação de ficar com a boca ao lado ou de ficar paralisado (perda de força repentina num braço ou perna).
Mal-estar Associado: Sentir-se suado de forma inexplicável e/ou enjoado (náuseas).
Falta de Ar: Dificuldade repentina e acentuada em respirar.
ALERTA: Perante estes sintomas, a recomendação é ligar imediatamente para o 112. Nunca deve conduzir a viatura própria para o hospital, pois além de tal ser extremamente perigoso, se estiver com uma equipa de emergência esta pode iniciar o socorro e as manobras de estabilização essenciais logo à chegada.
A importância da tensão arterial (Créditos: Pexels)
Fatores de risco e causas principais
As doenças cardiovasculares são multifatoriais. Alguns dos principais fatores de risco incluem:
Tabagismo (fumadores expõem-se a risco muito mais elevado)
Dieta rica em gorduras saturadas, sal e açúcares
Consumo excessivo de álcool
Idade avançada
Histórico familiar de doença cardíaca
Stress crónico e fatores psicossociais
Em Portugal, muitos destes fatores são bastante evidentes, se não vejamos: mais de metade da população tem excesso de peso, cerca de 40% sofre de hipertensão e 30% tem colesterol elevado. O combate passa, portanto, pela prevenção ativa. A SPC insiste que a população deve adotar um estilo de vida saudável e fazer um rastreio anual que pode, literalmente, salvar vidas.
O rastreio é fundamental: medir pressão arterial, avaliar perfil lipídico (colesterol), rastrear glicemia, acompanhar o peso e índice de massa corporal (IMC), além de avaliar hábitos de vida são passos fundamentais para um diagnóstico mais direcionado. Diretrizes europeias de prevenção das doenças cardiovasculares orientam médicos a estimar o risco global e decidir medidas preventivas adequadas, como é a prática de exercício físico e o cuidado com a alimentação.
Tratamento
No caso de enfarte ou evento agudo, o tratamento inclui:
Terapias de reperfusão (angioplastia, stents);
Fármacos antitrombóticos (ex.: aspirina);
Inibidores da enzima de conversão da angiotensina (IECA);
Betabloqueantes;
Estatinas para controlo do colesterol;
Em casos selecionados, terapias inovadoras como os inibidores de PCSK9 para colesterol persistente são recomendadas.
O tabagismo como uma das causas para doenças cardiovasculares (Créditos: Pexels)
Reabilitação cardíaca
A reabilitação cardíaca é parte essencial da recuperação, envolvendo exercício supervisionado, aconselhamento nutricional, educação sobre fatores de risco e apoio psicológico. É reconhecida como medida eficaz para reduzir mortalidade e melhorar a qualidade de vida. Contudo, em Portugal, apenas cerca de 8 % dos doentes com alta hospitalar após enfarte participam em programas de reabilitação cardíaca.
Cuidados Essenciais e Curiosidades Cardiovasculares
A adoção de medidas preventivas é a linha da frente na defesa do seu coração.
Cuidados a Ter (Pilares da Prevenção):
Controlo da Tensão Arterial: Manter a pressão arterial abaixo de 140/90 mmHg (ou mais baixa, se tiver diabetes ou doença renal). A medição regular é vital.
Alimentação Saudável: Adotar a Dieta Mediterrânica, rica em frutas, vegetais, cereais integrais, azeite e peixes gordos (ricos em Ómega-3). Reduzir o consumo de sal, açúcares e gorduras saturadas/trans.
Atividade Física: Praticar exercício físico moderado durante pelo menos 30 minutos na maioria dos dias da semana.
Abandono do Tabaco: Fumar é um dos fatores de risco mais graves e modificáveis. O risco de enfarte diminui significativamente logo após parar de fumar.
Controlo do Colesterol e Diabetes: Fazer análises regulares para monitorizar os níveis de colesterol (LDL) e glicemia.
Perspetivas futuras e desafios
Espera-se que o número de pessoas com insuficiência cardíaca aumente significativamente: projeta-se um crescimento de cerca de 30% até 2035 em Portugal.
O Plano Estratégico de Saúde Cardiovascular português visa reforçar prevenção, rastreios, acesso aos melhores cuidados e equidade no tratamento, porém, para tal plano ter sucesso, é importante que existam medidas de apoio para os doentes e para o público em geral.
A melhoria dos programas de reabilitação, aumento do acesso e qualidade dos serviços, e redução das desigualdades socioeconómicas são metas fundamentais.
A prevenção como melhor aliado ao combata às doenças cardiovasculares (Créditos: Pexels)
Curiosidades
Em Portugal, mais de metade da população adulta vive com excesso de peso.
A hipertensão, o “assassino silencioso”, muitas vezes não causa sintomas até provocar danos graves.
A mortalidade por DCV teve uma tendência de declínio em muitos países europeus, mas continua elevada em Portugal e nos grupos com risco social mais baixo.
Os programas de reabilitação cardíaca são pouco utilizados: só ~8 % dos pacientes participam, apesar de serem uma intervenção custo-eficaz.
O estudo de Framingham (EUA) marcou uma viragem no conhecimento das doenças cardíacas, ao identificar fatores de risco como hipertensão, colesterol e tabagismo.
Tempo é Músculo: A frase usada pelos cardiologistas resume tudo: quanto mais tempo o fluxo sanguíneo estiver bloqueado, mais músculo cardíaco morre, daí a urgência de agir no imediato.
Silêncio Letais: Em algumas pessoas, especialmente em idosos e diabéticos, o enfarte pode ser silencioso (sem dor no peito), manifestando-se apenas por falta de ar ou suores intensos, o que dificulta o socorro atempado.
A consciencialização e a prevenção são as armas mais eficazes contra as doenças cardiovasculares, sejam as que mais matam em Portugal, sejam as que reúnem as estatísticas mais negras no mundo.