AVC isquémico e AVC hemorrágico e o que os distingue

AVC, tipos, diagnósticos e tratamento (Créditos: Hospital Vera Cruz)

Entre um AVC isquémico e um AVC hemorrágico os sintomas são semelhantes, as causas muito diferentes e há ainda um pormenor pouco comum que ajuda a compreender casos recentes que marcaram a atualidade em Portugal.

O acidente vascular cerebral (AVC) continua a ser uma das principais causas de morte e incapacidade em Portugal. Apesar de frequentemente falado como uma única condição, existem dois tipos principais — AVC isquémico e AVC hemorrágico — com origens, tratamentos e prognósticos distintos. Nos últimos tempos, casos públicos como o de Nuno Markl, que sofreu primeiro um AVC hemorrágico e depois um isquémico, e o do ator Joaquim Monchique, chamaram a atenção a todo um país, para esta realidade clínica, levantando também questões médicas menos comuns.

Dois AVC, sintomas parecidos, mecanismos opostos

Do ponto de vista clínico, os sintomas iniciais tendem a ser semelhantes: fraqueza súbita de um lado do corpo, dificuldade em falar, alterações visuais, tonturas ou perda de equilíbrio. No entanto, a causa é completamente diferente, o que obriga a abordagens terapêuticas opostas — e urgentes. É por isso que nenhum AVC isquémico ou AVC hemorrágico pode ser diagnosticado apenas com base nos sintomas. A distinção só é possível em meio hospitalar, através de tomografia computorizada (TAC) ou ressonância magnética, exames que determinam o tipo e a extensão da lesão cerebral.

O tempo é um dos fatores mais importantes num AVC (Créditos: INEM)

AVC isquémico: quando o cérebro fica sem sangue

O AVC isquémico é responsável por cerca de 80 a 85% dos casos. Ocorre quando um coágulo bloqueia uma artéria cerebral, impedindo a chegada de oxigénio e nutrientes a uma zona do cérebro.

Principais causas

Tratamento

Quando identificado a tempo, pode ser tratado com:

O tempo é fator decisivo. Quanto mais rápido for restabelecido o fluxo sanguíneo, menor será o risco de sequelas. Em geral, o prognóstico do AVC isquémico é mais favorável do que o hemorrágico. Existe ainda o AVC isquémico transitório (AIT), muitas vezes chamado de “mini-AVC”, cujos sintomas desaparecem em poucas horas. Apesar disso, é um sinal de alerta sério para um AVC definitivo.


AVC hemorrágico: quando um vaso cerebral se rompe

O AVC hemorrágico ocorre quando um vaso sanguíneo no cérebro se rompe, provocando uma hemorragia que comprime o tecido cerebral e aumenta a pressão intracraniana.

Principais causas

Tratamento

Este tipo de AVC é menos frequente, porém, bastante mais grave, com maior risco de mortalidade e sequelas neurológicas significativas.

O que distingue ambos os AVCs (Créditos: SBAVC)

Quando o raro acontece: primeiro AVC hemorrágico, depois AVC isquémico

O caso de Nuno Markl chamou a atenção por um detalhe clínico pouco comum: a ocorrência de um AVC hemorrágico seguido, mais tarde, de um AVC isquémico. Embora raro, este cenário é medicamente possível e está descrito na literatura científica. Após um AVC hemorrágico, o cérebro entra num estado inflamatório complexo. Em alguns doentes:

Segundo dados recentes de estudos neurológicos europeus, esta sucessão ocorre numa minoria muito pequena dos casos, mas é mais provável em doentes com fatores de risco cardiovasculares pré-existentes.

O alerta reforçado por outros casos públicos

O ator Joaquim Monchique, que também sofreu um AVC recentemente, voltou a sublinhar a importância da vigilância dos fatores de risco, sobretudo a hipertensão arterial, muitas vezes silenciosa durante anos. Estes casos mediáticos ajudam a passar uma mensagem essencial: o AVC não escolhe idade nem profissão e exige resposta rápida.

Números que definem AVCs (Créditos: Caminhos Pós AVC)

Reconhecer sinais salva vidas

Em Portugal, os serviços de emergência continuam a insistir na regra prática para identificação precoce:

Cada minuto conta. Em AVC, tempo perdido é cérebro perdido.

Apesar de sintomas semelhantes, o AVC isquémico e AVC hemorrágico são doenças distintas, com tratamentos opostos e riscos próprios. Casos raros, como a sucessão de ambos num mesmo doente, ajudam a compreender melhor a complexidade do cérebro humano — e reforçam a importância de não pensarmos que “as coisas só acontecem aos outros”, bem como a necessidade de uma prevenção ativa, diagnóstico rápido e um acompanhamento médico rigoroso. Num país onde o AVC continua a ter um peso significativo na saúde pública, falar sobre o tema com rigor e clareza é mais do que informação: é prevenção.

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