Quem não se lembra da famosa borracha azul e vermelha que fez parte dos estojos escolares de milhões de alunos em Portugal e no mundo e que prometia magia capaz de apagar tinta de caneta.
Mas afinal, apagava mesmo a tinta de caneta ou não passava de um mito urbano estudantil?
A origem do mito
Nos anos 80, 90 e 2000, era mais que comum todos os estudantes ter no estojo a clássica borracha bicolor: de um lado, vermelha ou branca; do outro, azul. E quase todos ouviram a mesma história repetida nos corredores das escolas: “a parte azul serve para apagar caneta”.
A ideia parecia lógica. Se a parte branca apagava lápis, faria sentido que a azul tivesse sido criada para algo mais resistente, como a tinta de esferográfica. O problema é que, na prática, o resultado era quase sempre o mesmo: folhas rasgadas, cadernos estragados e a desilusão de perceber que a tinta permanecia intacta.
Ainda assim, o rumor ganhou força, persistiu durante décadas, atravessou gerações, tornando-se um dos maiores mitos escolares.

A função real da parte azul
Ao contrário daquilo que todos nós acreditavam, a borracha azul nunca foi desenhada para apagar tinta. A sua função era bem mais técnica. Foi pensada sim para apagar lápis em papéis de maior gramagem e textura, como cartolina, papel de desenho ou papel vegetal.
Enquanto a parte branca era mais suave e ideal para papel de caderno, a azul era mais abrasiva, feita com uma mistura de borracha natural e partículas abrasivas que aumentavam a sua dureza. Essa característica permitia apagar marcas de grafite em superfícies mais resistentes, onde a borracha comum não era eficaz.
Porque parecia funcionar com caneta?
Certo é que a borracha azul ou bicolor permaneceu durante anos e anos como sendo capaz de apagar a tinta da caneta, isto porque, de facto, parecia mesmo ser capaz de tal feito. O detalhe curioso está na forma como alguns estudantes achavam que funcionava. Quando aplicada em papéis grossos e com tintas de má qualidade, a borracha azul não apagava a tinta — arrancava fibras do papel. O “desaparecimento” da escrita devia-se, na verdade, à destruição parcial da folha, e não a uma propriedade mágica da borracha. Ou seja, o que parecia ser a prova de que “apagava caneta” era apenas a ilusão criada pelo desgaste do papel.
Um marco escolar que resistiu ao tempo
Apesar de não corresponder às expectativas, a verdade é que a borracha azul tornou-se um duradouro símbolo escolar, vendido ainda hoje. Estava presente em praticamente todos os estojos, alimentava conversas de recreio e até piadas recorrentes entre colegas: “a borracha que apaga caneta, mas só nos sonhos”. Como referido, ainda hoje continua a ser vendida em papelarias, não só pela sua utilidade prática, mas também pelo fator nostálgico que transporta adultos de volta aos tempos da escola.
Sabia que?
- As primeiras borrachas, criadas antes da invenção da borracha moderna, eram pedaços de pão duro, que os estudantes usavam para apagar grafite. O miolo seco tinha capacidade de absorver partículas de carvão, daí ser possível apagar o lápis como na altura se conhecia.
- O nome “borracha” vem do inglês rubber, derivado de rub out (“apagar”), devido à sua função de eliminar o grafite.
- A borracha moderna é feita geralmente de polímeros sintéticos, muitas vezes misturados com abrasivos suaves, dependendo do tipo de papel e da precisão exigida.
- A borracha para tinta verdadeira existe sim! O mito é mesmo verdade. Existem borrachas químicas que conseguem apagar algumas tintas, ainda que, contudo, funcionem através de reação química e não por abrasão, como a famosa borracha azul.

(Créditos: Facebook)
O peso da história
Para quem estudou nas décadas de 80, 90 e 2000, a borracha azul é ainda hoje mais do que um simples objeto escolar: é memória, é cultura estudantil, é símbolo de uma época. Representa a mistura de ingenuidade, criatividade e curiosidade que marcou a infância de muitos. Independentemente de ser capaz de apagar tinta ou não, a verdade é que é um mito que sobreviveu à passagem do tempo, que soube e foi capaz de envelhecer bem, resistindo ainda assim, muito para lá do seu tempo e muito depois da sua “magia” ter sido desvendada.
E depois de décadas passadas, ainda hoje continuamos a olhar para estas borrachas numa papelaria, num misto de esperança e recordação. Esperança, porque ainda gostaríamos de ver no nosso tempo de vida uma borracha capaz de realmente apagar tinta de caneta e recordação, porque nos transporta para a nossa infância e para a magia que era a ilusão da borracha azul!
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